É preciso desconstruir para construir de novo

É preciso desconstruir para construir de novo

Mexer, remexer. Revirar a terra, derrubar paredes. Vira uma sujeira só, uma bagunça. Incomoda. E a gente vai protelando a reforma. Remenda aqui, passa uma massa ali, tampa esse trinco, faz só uma pintura lá. Mas chega uma hora que não dá mais.

Tem que mexer profundo. Mudar mesmo. Consertar. Jogar fora o velho para dar espaço ao novo. Nessa mexida a gente vai se deparando com coisas bem desagradáveis. Enxergamos coisas podres, outras escondidas em gavetas, sujeira embaixo do tapete, armários abarrotados de velharias. Uma marretada na parede e estoura o cano. Não estava previsto. E quanto mais mexe, mais coisa aparece e nos perguntamos: terá essa obra um fim?

Aos poucos as coisas vão se acomodando. Os espaços vão ficando prontos. Um acabamento ali, uma pintura aqui. Por vezes fica a sensação de: puxa, isso eu poderia ter feito diferente. Isso aqui não ficou bom. Esse canto aqui não era bem do jeito que eu imaginava, mas deixa assim, dá pra conviver.

E chega o momento de decorar. Colocar os objetos novos, o que nos alegra os olhos. Cores, formas, materiais. Vão dando vida a algo que acaba de renascer. E vem uma sensação de satisfação, de que valeu à pena todo o esforço e o desconforto.

Até que o tempo passa. O que era novo vai envelhecendo. A pintura descasca, o desgaste vai ficando evidente. Alguns ambientes, móveis, espaços, decoração não fazem mais sentido. É tempo de mexer outra vez.

Talvez a vida não seja muito diferente disso. De tempos em tempos ela nos chama a mudar. Às vezes pede uma forma em que é possível planejar (e mesmo planejada, que obra é isenta de imprevistos e dores de cabeça?). Outras vezes, é mesmo no modo emergência. E é grande a resistência interna que enfrentamos para isso. A mais dura batalha é aquela que travamos conosco.

Tendemos a suportar melhor a dor de permanecer do que a de mudar. Porque por mais que doa, esse lugar é conhecido. Já sabemos como lidar, sabemos os macetes. Conseguimos contornar os desconfortos mais agudos. E ali, na nossa zona de conforto conhecida, nos aninhamos em segurança. Porque como incomoda sair dela!

Ao passo que mudar nos pede que abramos os armários e gavetas da nossa alma. Da nossa história. Da nossa experiência. De tudo o que acreditamos e que nos trouxe até aqui. E muitas vezes temos que derrubar paredes que até então foram nosso alicerce. E isso inevitavelmente afeta não só a nós, mas a quem nos cerca. Normalmente a quem mais amamos. Tijolo por tijolo daquilo que nos é conhecido dá lugar a um profundo e assustador vazio.

A cada parede derrubada vamos encontrando medos, sombras, fraquezas. Vai surgindo uma versão de nós que não é tão lustrosa e agradável. Uma faceta que escondemos, talvez e inconscientemente, até de nós mesmos.

Fazer de fato uma reforma honesta em si para construir a vida que se quer é um mergulho profundo, dolorido e solitário num ciclo infinito de dar-se conta – aceitar – fazer escolhas – ir pra vida sem colete de segurança.

Mas em algum lugar de dentro de nós há uma capacidade imensa de nos reconstruirmos. De reinventar espaços. De abrir janelas onde só havia muros. De redecorar nosso coração para que ele se inunde de novo de força e fé e seja capaz de mais uma vez enxergar o belo em si, nos outros, no mundo.

Cada ser em si carrega a capacidade de construir e reconstruir sua vida como uma obra de arte que nunca fica plenamente acabada. Se renova. Renasce. Como fênix que ressurge de suas próprias cinzas.

 

Ana Paula Coscrato dos Santos administradora de Empresas, Gestora e Facilitadora do Impulso Emerge, Cofundadora e Coach pela Eight Coaching, Gestora da Contac Gestão e Contabilidade.


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