Caminhos de um viver em conexão

Caminhos de um viver em conexão

Caminhos de um viver em conexão

Um estudo sobre novas formas de pensar trabalho, dinheiro e negócios

 

A maneira pela qual tem se dado as relações do homem consigo, com o outro e com o mundo não-humano carece urgente e desesperadamente de cura. As crises políticas, econômicas e ambientais pelas quais o mundo passa, a intolerância — em níveis insustentáveis há muito tempo — ao que é diferente dos padrões individuais de visão de mundo e de crenças, a descartabilidade das vidas humanas e não-humanas, são reflexo de uma desconexão profunda do homem consigo e com o outro.

Essa desconexão se evidencia pela maneira simplista, binária e não-sistêmica de como o homem conduz sua relação com seu entorno. A começar pela relação esquisofrênica que possui com poder e pela compreensão equivocada que tem de amor. Adam Kahane traz em seu livro Poder&Amor — Teoria e Prática da Mudança Social (Editora Senac, 2010) definições brilhantes dessas duas forças, dadas por Martin Luther King e Paul Tillich (teólogo alemão-estadunidense), e de como elas são complementares — e não antagônicas como se percebe ao primeiro olhar desatento.

Tillich define poder como “o impulso de tudo o que vive para realizar a si mesmo com crescente intensidade e extensividade” e amor como “impulso para a união do que está separado”.

Martin Luther King Jr., no discurso “Where do we go from here” (Para onde vamos a partir daqui — tradução livre) por sua vez, complementa:

“O poder propriamente entendido não é mais que a capacidade de atingir um objetivo. É a força necessária para provocar mudança social, política e econômica. […] E um dos grandes problemas da história é que os conceitos de amor e poder são normalmente contrastados como opostos — pólos opostos — de modo que o amor é identificado como resignação de poder, e o poder, como negação do amor. Agora temos que consertar isso. O que precisamos perceber é que o poder sem amor é imprudente e abusivo, e o amor sem poder é sentimental e anêmico. […] É exatamente esse conflito entre o poder imoral e a moralidade sem poder que constitui a maior crise de nosso tempo.”

 

Outro desajuste se evidencia na relação do homem com trabalho. O mundo, felizmente, caminha rumo a maneiras mais justas de se fazer negócios e de se estruturar o trabalho. Mas há ainda inúmeras organizações em que dominam o ego, o abuso de poder e a organização baseada em horas, segundo a qual a quantidade de horas em que se fica na empresa é mais importante que o resultado que se produz.

Domenico de Masi (Sociólogo do Trabalho na Universidade de Roma) traz em seu livro O Futuro do Trabalho:

“[…] a organização social não consegue acompanhar o progresso tecnológico: as máquinas mudam muito mais velozmente que os hábitos, as mentalidades e as normas.”

 

Foi-se o ambiente fabril, mas permanece o modelo mental industrial em que exploração é uma força diretiva; em que estar presente fisicamente na empresa, mesmo que de maneira improdutiva, ainda é valorizado; em que empregadores reforçam a relação de subordinação em vez de parceria com seus funcionários e em que funcionários reforçam a postura de vítimas de seus empregadores.

De outro lado, empregadores ficam acuados pela ineficiente e arcaica legislação trabalhista do país, que não estabelece uma relação equilibrada de direitos e deveres de ambos os lados. E direitos e deveres transcendem o “pagar em dia”, de um lado, e o “ser assíduo e honesto”, de outro. Isso são condições básicas. Ao contrário, essa relação carece de um nível de consciência muito mais amplo, centrado substancialmente na auto-responsabilidade.

Auto-responsabilidade encerra aqui o seguinte sentido: a compreensão de que as circunstâncias de minha vida são reflexo direto das minhas atitudes, do meu modelo mental, das minhas crenças e do quanto me dedico ao meu autodesenvolvimento para ter uma existência e ação mais conscientes no mundo.

Ainda no que tange à relação do homem com trabalho, há que se observar a dissonância entre as aspirações pessoais do indivíduo e a ainda presente despersonalização que tem de enfrentar dentro de muitos contextos organizacionais. Os indivíduos inibem — ou até desconhecem — seus próprios talentos e sua voz interior e não encontram espaço para a manifestação disso. Tampouco encontram maneiras de obter retribuição monetária com isso por conta da crença de que ganhar dinheiro e viver da própria abundância interior (talentos, conhecimentos, sabedoria) são coisas antagônicas. É o famoso “fazer o que gosto ou o que dá dinheiro”. E por que? O que é que significa trabalho? O que é reconhecido como valor para que se possa pagar quantia monetária por ele? O que é que o sistema econômico reconhece como resultado e valor?

 

Ainda Domenico de Masi:

“[…] uma mulher que educa os filhos em casa não é remunerada, enquanto uma mulher que educa os filhos dos outros numa creche merece uma remuneração. Se duas mulheres cuidam cada uma do próprio filho, são consideradas dona de casa e não são pagas por isso; se uma cuida do filho da outra, são consideradas babás e remuneradas.”

 

Naturalmente que nem tudo se resume apenas a dinheiro, quanto mais na educação dos filhos — que é o exemplo citado por de Masi. Mas tal exemplo nos serve para refletir sobre como organizamos, entendemos e estruturamos trabalho há tanto tempo.

Mudando a ótica do trabalho do ponto de vista individual para o coletivo e atribuindo a ele o papel de força produtiva que move o mundo economica, política e socialmente, vemos nas empresas — independentemente de porte ou ramo de atividade — um papel crucial de interferência no equilíbrio social, econômico e ambiental do mundo.

Vivemos hoje no Brasil e no mundo um cenário em que os pilares da moral, da ética e do caráter estão ruídos pela ganância e exacerbação do poder. Governo e empresas unidos pelo poder sem amor, numa busca psicopata por mais poder, mais dinheiro, mais acúmulo.

Qual é o papel, então, desses conglomerados econômicos? Estão a serviço de que? Onde está o cerne dessa crise moral e de valores? O que é, portanto, trabalho? Como o trabalho tem se estruturado? Que novas relações de trabalho e de negócios tem se construído? E como isso contribui para que o indivíduo viva sua verdadeira identidade, com auto-responsabilidade, ocupando seu lugar no mundo em que possa ser a melhor versão de si mesmo e, assim, termos uma relação de mais inteireza do indivíduo consigo mesmo e de equilíbrio e harmonia com o outro? Como pessoas e organizações podem operar como poderosos agentes de transformação positiva no mundo, integrando poder e amor?

E todas essas perguntas tem como pano de fundo algo que me inquieta e ao qual me dedico:

Como transformar as instituições, assim como o coração de cada pessoa, para que o mundo seja digno para toda vida humana e não-humana?

A humanidade tem sido convidada a repensar valores, modelos e comportamentos em diferentes esferas — negócios, política, educação, economia, dentre outros — que não funcionam mais em um novo nível de consciência para o qual estamos evoluindo. Temos sido convidados a transformar a maneira como nos relacionamos com trabalho, com dinheiro, com prosperidade e, essencialmente, como nos relacionamos uns com os outros.

Essa revisão do exisitir humano passa muito fortemente pelo pilar da auto-consciência. Enquanto o homem for movido pelo ego e por interesses exclusivamente particulares; enquanto não houver a compreensão de que suas atitudes individuais tem impacto sistêmico; enquanto o homem viver em modo automático e reativo a fatores externos e não olhar com olhos frescos para suas limitações, suas forças, suas atitudes positivas e negativas, sua inveja, seu medo, sua vulnerabilidade; enquanto o homem não resgatar o diálogo como forma principal de construção das relações; enquanto o homem não integrar seu poder de criação e influência a uma atitude de amor e compaixão a cada ser vivo e não vivo do mundo; enquanto ele não reconhecer, honrar e preservar sua interdependência não haverá solução política, econômica, de governança e nem de nenhuma outra esfera que sustente uma mudança substancial e duradoura.

 

E é a esse REPENSAR, portanto, a que me dedico, por meio do estudo de como tem se dado essa transição pela qual estamos passando, tanto do ponto de vista individual quanto coletivo, tendo como campo de investigação:

  • a maneira como nos relacionamos com trabalho, negócios e dinheiro e que outras formas possíveis há para pensarmos o mundo em relação a esses três aspectos da sociedade; e
  • o papel do auto-desenvolvimento para se criar e sustentar um novo exisitir humano.

 

Não tenho o objetivo de realizar um estudo conclusivo, tampouco o que compartilhar aqui é definitivo. Essa investigação parte do meu próprio desejo de ampliar minha compreensão do mundo. O que vou compartilhando ao longo das minhas pesquisas é o que estou também aprendendo. Desejo, sim, prover conteúdos e reflexões que contribuam com pessoas e organizações que queiram se reinventar em direção a um mundo em que se equilibram a prosperidade material, pessoal, profissional e espiritual.

 

Ana Paula Coscrato dos Santos

Administradora de empresas, herdeira de empresa familiar, coach, facilitadora de processos de transformação individual e coletiva, pesquisadora independente, dançarina e escritora.


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